sexta-feira, 9 de julho de 2010

As prostitutas na música brasileira

Edilson Veloso

Segundo alguns estudiosos, a prostituição é a profissão mais antiga que se tem conhecimento. Há também quem conteste essa afirmação. Mas prefiro não entrar nessa discussão. No entanto, sabe-se que existem vários adjetivos: messalina, dama da noite, meretriz, mulher da vida, mulher de esquina, menina de praça, vida fácil, michê. Existem também rótulos do estilo mais vulgar, a exemplo de: rampeira, quenga, rapariga, aventureira e a pior de todas; a conhecida puta. (com licença da má palavra, como diziam os mais antigos). Hoje, só se fala em garota de programa. Uma relação entre um homem e uma prostituta, na maioria das vezes, chama-se de aventura pelo fato de que jamais haverá sentimento. Haverá, no máximo, um prazer momentâneo. Vale ressaltar que prostituição é uma troca de favores sexuais de maneira consciente e que nela não há interesses sentimentais ou afetivos. Em outros casos pode acontecer trocas sexuais no sentido de haver vantagens profissionais, assim como ganho de bens materiais e principalmente dinheiro. É verdade que a prostituição não é um privilégio feminino. Muito já se fala em homens que vendem o corpo. Esses são chamados de garotos de programa. É bom que se diga que ao contrário do que prega o senso comum, de vida fácil as prostitutas não têm nada. Quem nunca ouviu alguma história de prostituta que foi agredida física ou moralmente? Tem aquelas que foram proibidas de fazerem parte da "sociedade". As que sequer tinham direito a um boa noite, com licença, por favor, entre tantos outros gestos. Mas o que me traz aqui nesse texto é a exaltação a essas que merecem todo o meu respeito e admiração. Principalmente por se assumirem no que são e como vivem. A exaltação feita por letristas, poetas, compositores e cantores da música brasileira. Sim, as moças foram ao longo do tempo cantadas e exaltadas através da nossa música. E, o que me deixa feliz, é que são histórias para a gente refletir o cotidiano dessas que antes de serem prostitutas, são humanas como eu e como você. Por isto, lhe convido, caro leitor, a fazermos uma viagem no tempo. Começo pelo grande Agenor de Oliveira, o conhecido Cartola, um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Cartola compôs a belíssima canção "O mundo é um moinho". Nesta letra ele exprime todo o seu desgosto ao descobrir que sua filha, com apenas 17 anos, havia se tornado prostituta. Foram noites em claro lamentando sua saída de casa. Quem não lembra do cantor Wando, que escreveu na década de 70 a letra "Moça", onde ele diz: "moça/sei que já não és pura/teu passado é tão forte/pode até machucar". Ele conta a história de um sujeito que se apaixona por uma meretriz. O cantor César Sampaio falou de uma mulher que ficava na beira de um cais esperando os navios e seus homens de branco para ganhar algum - ver a canção "Secretária da beira do cais". Esta canção estourou nas paradas de sucesso em 1975. Como não falar do inesquecível Odair José, que também na década de 70 ficou conhecido como o preferido das minhas amigas empregadas domésticas? Nossas secretárias do lar. Este contou uma história mais romântica ainda. Ele retratou um acontecimento sobre um rapaz que foi ao prostíbulo na primeira vez apenas para se distrair. Já na segunda vez, ele foi por saudade, num raro caso em que um envolvimento por meio de prostituição resulta numa paixão. Odair José cantava em bom tom: "eu vou tirar você desse lugar/eu vou levar você pra ficar comigo/e não interessa o que os outros vão pensar". Mas não foram apenas os cantores chamados "populares" que exaltaram as meninas da noite. Chico Buarque conta o sofrimento da injustiçada Geni, uma mulher que era constantemente hostilizada por toda a população de uma cidade só pelo fato de ser prostituta. E pensar que no final das contas foi justamente Geni quem salvou o povo da fúria de um psicopata. Ainda assim, eles bradavam: "joga pedra na Geni/ela é boa pra apanhar/ela é boa de cuspir/ela dá pra qualquer um/maldita Geni" - a canção "GENÍ E O ZEPELIM. Antes dessa letra, Chico Buarque já havia narrado outro caso envolvendo uma michê que afirmava trocar sexo por bombons, corte de cetim, um botequim, um cinema, dentre tantos outros - a canção "FOLHETIM". E Chico não parou por aí. Tem a canção "TEREZINHA", gravada por Maria Bethania, onde ele fala de uma moça que recebe três clientes que tentam mimá-la à base de bichos de pelúcia, aguardentes e etc. O pop/rock Brasil não ficou de fora. O Capital Inicial também exalta uma menina por nome Natasha, de 17 anos, que até falsifica a identidade (seu nome verdadeiro era Ana Paula) só para entrar na prostituição. E, pasmem caros amigos, até o rei Roberto Carlos entrou na onda de retratar a vida de uma meretriz - a canção "JOGO DE DAMAS". Nela, Roberto narra a trajetória de uma cidadã que de mulher dama chegou a ser chamada de santa e depois desprezada e esquecida. Aqui em Feira de Santana, o talentoso Beto Pitombo lembrou as meninas que faziam vida no Mocó, numa alusão ao talvez beco mais famoso da cidade. Mas não poderia encerrar este texto sem citar Zé Ramalho. Imaginem que há quem afirme que ele foi garoto de programa. Essa afirmativa encontra-se na canção "GAROTO DE ALUGUEL". E aos meus amigos digo: com todo respeito ao bom Zé Ramalho, se com aquela cara ele foi garoto de programa, tenham a certeza de que nada está perdido. E viva o Beco da Energia! Viva as profissionais do sexo, as damas da noite, as meretrizes e todas as outras! Elas são humanas! Elas são mulheres! Elas são gente como a gente!

Edilson Velloso é professor de educação física, radialista e pesquisador de música

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