Se fosse vivo, Gregório de Matos por certo estaria tão estupefato quanto eu. Houve um tempo em que música feita na Bahia nos levava ao aprendizado. Aprendíamos História, Geografia, Literatura e muita poesia. Lembro-me que numa composição de título “Canto ao Senegal”, gravada pela Banda Reflexu’s (foto), de autoria de Ithamar Tropicália e Valmir Brito, aprendi que o Senegal fazia fronteira com a Mauritânia e o Mali. Quem não se deliciou com a linda música “Faraó”, escrita por Luciano Gomes, um policial militar que teve a sensibilidade de ler para compor aquela que é até hoje a música mais executada na história do Axé Music.Quem, em Feira de Santana, não se orgulhou em tomar conhecimento de composições de Carlos Pitta, que tanto fez sucesso com a banda Cheiro de Amor, a exemplo de “Rebentão”, “Benção” e a inesquecível “Salassiê”? Foi você, Carlos Pitta, que através da sua belíssima composição me despertou para ler sobre o Império Etíope e entender um pouco mais a história. Quem não se lembra da música “Revolta do Olodum”, de José Olissan e Domingos Sérgio, que exaltava a figura de Antônio Conselheiro?
Bem, seu for listar, é claro que este espaço não caberá tanta coisa boa que já de fez na nossa música. Música com letra, com harmonia, com enredo e com célula rítmica. Infelizmente hoje existe não só uma enorme distorção, assim como uma evidente inversão de valores. Valores musicais e valores morais. De um tempo pra cá o que se ouve é muita baboseira, imoralidade, distorção, falta de senso crítico e o que é pior: o ataque à figura feminina. A mulher nunca foi tão desvalorizada, ridicularizada e achincalhada como agora. Parece que certos compositores e pseudos cantores não têm mãe, esposa, irmã, madrinha, filha.
É como se uma guerra tivesse sido declarada contra a figura e a alma da mulher. São Letras sem o mínimo discernimento. Agressão de todo tipo pra todo lado. Infelizmente essa degradação encontra espaço na mídia, mais precisamente em emissoras de rádio FM, que em sua maioria aluga sua programação a empresários de bandas e a produtoras que não estão preocupados se há ofensas ou não. Até porque pra eles o que vale é o fator financeiro. Outra coisa que me deixa triste é o fato de que tem algumas mulheres que se dizem ou se mostram adeptas desse verdadeiro lixo musical, dessa explícita pornofonia.
Não posso deixar de citar como mau exemplo maior, a banda “Black Style” – se é que posso chamar de banda – que só apresenta letras de baixíssimo nível, de péssimo gosto. É de bom alvitre lembrar aos compositores e cantores que essa mulher a quem tanto maculam, foi quem lhes deu o bem maior que possuem: a vida.
Edilson Veloso é professor de Educação Física, radialista e pesquisador de música
Nenhum comentário:
Postar um comentário