domingo, 11 de julho de 2010

Triste Bahia

Se fosse vivo, Gregório de Matos por certo estaria tão estupefato quanto eu. Houve um tempo em que música feita na Bahia nos levava ao aprendizado. Aprendíamos História, Geografia, Literatura e muita poesia. Lembro-me que numa composição de título “Canto ao Senegal”, gravada pela Banda Reflexu’s (foto), de autoria de Ithamar Tropicália e Valmir Brito, aprendi que o Senegal fazia fronteira com a Mauritânia e o Mali. Quem não se deliciou com a linda música “Faraó”, escrita por Luciano Gomes, um policial militar que teve a sensibilidade de ler para compor aquela que é até hoje a música mais executada na história do Axé Music.
Quem, em Feira de Santana, não se orgulhou em tomar conhecimento de composições de Carlos Pitta, que tanto fez sucesso com a banda Cheiro de Amor, a exemplo de “Rebentão”, “Benção” e a inesquecível “Salassiê”? Foi você, Carlos Pitta, que através da sua belíssima composição me despertou para ler sobre o Império Etíope e entender um pouco mais a história. Quem não se lembra da música “Revolta do Olodum”, de José Olissan e Domingos Sérgio, que exaltava a figura de Antônio Conselheiro?
Bem, seu for listar, é claro que este espaço não caberá tanta coisa boa que já de fez na nossa música. Música com letra, com harmonia, com enredo e com célula rítmica. Infelizmente hoje existe não só uma enorme distorção, assim como uma evidente inversão de valores. Valores musicais e valores morais. De um tempo pra cá o que se ouve é muita baboseira, imoralidade, distorção, falta de senso crítico e o que é pior: o ataque à figura feminina. A mulher nunca foi tão desvalorizada, ridicularizada e achincalhada como agora. Parece que certos compositores e pseudos cantores não têm mãe, esposa, irmã, madrinha, filha.
É como se uma guerra tivesse sido declarada contra a figura e a alma da mulher. São Letras sem o mínimo discernimento. Agressão de todo tipo pra todo lado. Infelizmente essa degradação encontra espaço na mídia, mais precisamente em emissoras de rádio FM, que em sua maioria aluga sua programação a empresários de bandas e a produtoras que não estão preocupados se há ofensas ou não. Até porque pra eles o que vale é o fator financeiro. Outra coisa que me deixa triste é o fato de que tem algumas mulheres que se dizem ou se mostram adeptas desse verdadeiro lixo musical, dessa explícita pornofonia.
Não posso deixar de citar como mau exemplo maior, a banda “Black Style” – se é que posso chamar de banda – que só apresenta letras de baixíssimo nível, de péssimo gosto. É de bom alvitre lembrar aos compositores e cantores que essa mulher a quem tanto maculam, foi quem lhes deu o bem maior que possuem: a vida.

Edilson Veloso é professor de Educação Física, radialista e pesquisador de música

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